sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Homem no Mundo


10. Um sentimento de piedade deve sempre animar o coração dos que se reúnem sob as vistas do Senhor e imploram a assistência dos bons Espíritos. Purificai, pois, os vossos corações; não consintais que neles demore qualquer pensamento mundano ou fútil. Elevai o vosso espírito àqueles por quem chamais, a fim de que, encontrando em vós as necessárias disposições, possam lançar em profusão a semente que é preciso germine em vossas almas e dê frutos de caridade e justiça.
Não julgueis, todavia, que, exortando-vos incessantemente à prece e à evocação mental, pretendamos vivais uma vida mística, que vos conserve fora das leis da sociedade onde estais condenados a viver. Não; vivei com os homens da vossa época, como devem viver os homens. Sacrificai às necessidades, mesmo às frivolidades do dia, mas sacrificai com um sentimento de pureza que as possa santificar.
Sois chamados a estar em contacto com espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes. Sede joviais, sede ditosos, mas seja a vossa jovialidade a que provém de uma consciência limpa, seja a vossa ventura a do herdeiro do Céu que conta os dias que faltam para entrar na posse da sua herança.
Não consiste a virtude em assumirdes severo e lúgubre aspecto, em repelirdes os prazeres que as vossas condições humanas vos permitem. Basta reporteis todos os atos
da vossa vida ao Criador que vo-la deu; basta que, quando começardes ou acabardes uma obra, eleveis o pensamento a esse Criador e lhe peçais, num arroubo d’alma, ou a sua proteção para que obtenhais êxito, ou a sua bênção para ela, se a conc1uístes. Em tudo o que fizerdes, remontai à Fonte de todas as coisas, para que nenhuma de vossas ações deixe de ser purificada e santificada pela lembrança de Deus.
A perfeição está toda, como disse o Cristo, na prática da caridade absoluta; mas, os deveres da caridade alcançam todas as posições sociais, desde o menor até o maior.
Nenhuma caridade teria a praticar o homem que vivesse insulado. Unicamente no contacto com os seus semelhantes, nas lutas mais árduas é que ele encontra ensejo de praticá-la. Aquele, pois, que se isola priva-se voluntariamente do mais poderoso meio de aperfeiçoar-se; não tendo de pensar senão em si, sua vida é a de um egoísta. (Cap. V, No  26.)
Não imagineis, portanto, que, para viverdes em comunicação constante conosco, para viverdes sob as vistas do Senhor, seja preciso vos cilicieis e cubrais de cinzas. Não, não, ainda uma vez vos dizemos. Ditosos sede, segundo as necessidades da Humanidade; mas, que jamais na vossa felicidade entre um pensamento ou um ato que o possa ofender, ou fazer se vele o semblante dos que vos amam e dirigem. Deus é amor, e aqueles que amam santamente ele os abençoa. – Um Espírito Protetor. (Bordéus, 1863.)
Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XVII – Sede Perfeitos

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Um pouco de Diversão


LUXO NA UMBANDA


Vamos refletir sobre: "necessidade x vaidade x humildade".
-Não está acontecendo um exagero de vaidade na Umbanda (não da religião, mas dos adeptos)?
Entre muitos aspectos, podemos citar como exemplo a vestimenta e os paramentos: quando o médium tem uma entidade ou outra que usa um apetrecho de trabalho (um chapéu, um lenço, uma bengala ou mesmo outro elemento), nota-se que a necessidade desse material é do guia, ou seja, aquele espírito usa o chapéu, o lenço etc. para realizar seu trabalho, dentro
do seu fundamento. Mas, quando TODAS as entidades que trabalham com o mesmo médium, ou todas do mesmo terreiro (mesmo em médiuns diferentes) precisam se paramentar, não seria mais coisa do(s) médium(ns), na maioria das vezes semi-consciente(s), do que do(s) espírito(s) atuante(s)?
Na internet, revistas e jornais, podemos ver com facilidade, fotos em que o mesmo médium (ou todos do terreiro), quando incorporado(s) apresenta(m)-se da seguinte forma: o baiano está vestido de cangaceiro, com falangeiros de seu Zé Pelintra (não concordo com o termo “linha de malandros”, usado pelos umbandistas mais novos) usa terno, bengala e chapéu, o boiadeiro parece um capataz ou um coronel fazendeiro, o caboclo se veste imitando
um índio (já que o de modo geral, os artigos encontrados, como cocares, não são genuinamente indígenas, e muitos não têm nenhuma semelhança aos paramentos que eram utilizados pelos povos ancestrais de nosso continente, ou mesmo pelos índios atuais), o Ogum veste roupa de soldado romano e tem uma linda espada (se possível, cravejada de brilhantes), o erê traja roupas infantis (macacãozinho, vestidinho colorido etc), o cigano com vestes características do povo (e lógico, quanto mais colorido, melhor), o Exu usa capa, tridente e cartola, o marinheiro usa uma “farda” como se fosse um autêntico capitão da marinha americana, etc. Isso quando não resolvem por um “trono” no meio do terreiro, colocando a entidade numa posição de rei dentro da casa (já existem tronos especialmente confeccionados para Exus e que são vendidos aos “olhos da cara” nas casas de artigos religiosos).
O que vocês acham? Será que existem mesmo médiuns ou casas onde TODAS as Entidades atuantes precisam se paramentar?
Seria coincidência esses espíritos escolherem, todos ao mesmo tempo, esse médium ou essa casa, para se paramentar?
Isso não seria contrário ao principal lema da Umbanda: “HUMILDADE e
SIMPLICIDADE”- tão ensinado pelos nossos sábios Pretos-Velhos?
A roupa branca (símbolo de igualdade), aos poucos estaria deixando de ser a FARDA dos soldados do exército do Pai Oxalá, já que até em dias de giras comuns estão usando roupas cada vez mais esplendorosas?
Será que festa de entidade ou orixá precisa mesmo desse luxo todo, deixando, às vezes, um local sagrado como um templo umbandista mais parecido com uma ala de escola de samba, onde todo mundo fica "fantasiado"?
Esse colorido todo não facilita a indução à mistificação, ou no mínimo, ao animismo, já que o médium que gastou tanto dinheiro com toda essa parafernália, não vai querer deixar tudo aquilo guardado?
Ou será que os guias, que sempre foram exemplos de humildade e simplicidade, é que são (ou estão ficando) cada vez mais vaidosos (o que não acredito)? Irmãos-de-fé, filhos da nossa amada Umbanda: apesar do respeito às diferenças, certas questões poderiam e deveriam ser melhor estudadas ou revistas pelos seguidores do Mestre Oxalá, afinal de contas, a Umbanda veio para dar espaço a todos os filhos do Pai Celestial,
principalmente aos simples e humildes (encarnados e desencarnados), muitas vezes não aceitos em outros segmentos religiosos.
Com toda essa parafernália utilizada atualmente, como os mais necessitados se encaixarão, já que muitos não podem comprar uma “roupa de Exu”, que muitas vezes, custa mais do que eles ganham por um mês de trabalho?
Lembremos que o brilho que devemos mostrar não é no luxo da vestimenta, ou seja, o lado externo, pois tudo isso é ilusório, já que roupa não tem força espiritual.
O que realmente importa é a essência divina que existe em cada um de nós, filhos de Deus (encarnados e desencarnados). Esse brilho, que brota no âmago do ser é que deve ser mostrado e melhor ainda, doado, a todos aqueles que necessitam. Isso sim agrada ao Pai, aos orixás e seus Falangeiros de Luz.

Sandro da Costa Mattos
APEU - Associação de Pesquisas Espirituais Ubatuba
Templo de Umbanda Branca do Caboclo Ubatuba.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

PRINCÍPIOS DA PRÁTICA PEDAGÓGICA DE JESUS E SUA APLICAÇÃO NA UMBANDA

1. A Pessoa Humana 

Compreendendo o princípio pedagógico: Estudando a vida de Jesus entendemos que a valorização do ser humano naquilo que apresenta em seu atual estágio de desenvolvimento, é o primeiro princípio respeitado pelo Mestre, pois não exige dos seus discípulos e seguidores nada além das suas capacidades, orientando suas potencialidades para o bem ao próximo. Nas narrativas dos chama-dos quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João), destacam-se oportunidades em que Jesus revela pleno conhecimento dos seus interlocutores e incentiva-os a darem de si mesmos para o bem da coletividade, sempre buscando que cada um assuma uma postura, tenha uma atitude. 
Visão umbandista deste princípio pedagógico: Valorizar o ser humano naquilo que traz de experiências pretéritas (vidas passadas) e no seu potencial de desenvolvimento intelectual e moral, como espírito imortal presentemente reencarnado, é princípio que também caracteriza o trabalho educacional umbandista. 
Praticando este princípio pedagógico: O umbandista deve respeitar aquele que está sob seus cuidados e orientação (o educando), estimulando-o para desenvolver habilidades, aptidões e concepções por si mesmo e na interação com os demais educandos. "Conhecereis a verdade e ela vos libertará", disse Jesus, afirmando que o homem, através do seu progresso, paulatinamente estará mergulhando na verdade divina da vida, de acordo com os estímulos educacionais que recebe. Deve o evangelizador introduzir dinâmicas educativas que proporcionem ao educando fazer por si mesmo, pensar e elaborar conceitos.

2. O Crescimento Pessoal 

Compreendendo o princípio pedagógico: Jesus, o maior educador de todos os tempos, por várias vezes estimulou os discípulos para que exercitassem seu crescimento interior na fé e na prática do Evangelho. Na passagem da tempestade, quando o barco ameaça perder-se no fundo das águas revoltas, Jesus aparece andando sobre as ondas e, percebendo a dúvida dos discípulos, pois pensavam estar sob ilusão, convida Pedro a ter fé e andar também ele sobre as águas. Jesus aguarda, mantendo distância, e o mais velho dos discípulos efetivamente consegue. Entretanto, Pedro vacila e começa a afundar, sendo resgatado pelo Mestre que explica: a pouca fé fora o motivo, mas o crescimento do poder dessa fé no íntimo do ser pode realizar prodígios, como aquele do qual todos foram testemunhas. 
Visão umbandista deste princípio pedagógico: Sendo o homem um espírito eterno presentemente re-encarnado, dotado de atributos, ou potencialidades, seu crescimento pessoal é fator preponderante na ação educacional. O crescimento interior da fé e da prática do Evangelho também são reconhecidos pela Umbanda como fundamentais para a evolução do espírito. 

Praticando este princípio pedagógico: Deve o umbandista solicitar dos educandos o esforço próprio no cumprimento das tarefas em sala de aula e nos estudos, não fazendo por eles (nem mesmo os trabalhos manuais quando sejam menores). A introdução de estudos relativos às leis divinas e sua aplicação na vida cotidiana é outro fator importante no desenvolvimento do educando, o que deve ser feito utilizando-se dinâmicas como dramatização, exemplos vivos retirados da mídia, etc., permitindo ampla interação por parte do educando.
3. Valorização do Contato Pessoal 

Compreendendo o princípio pedagógico: Jesus está com os discípulos. Jesus está com os familiares dos discípulos. Jesus está na praça pública. Jesus está na praia. Jesus está nas estradas. Jesus está no templo. Jesus sempre está com alguém, inclusive com Deus nos momentos íntimos de oração. É a valorização do contato pessoal, pois a Boa Nova é para o coração do homem. Jesus vai ao encontro dos seus irmãos e atende-lhes as necessidades. 
Visão umbandista deste princípio pedagógico: "Fora da caridade não há salvação" é o grande lema da Umbanda, entendendo que caridade é amar o próximo, é atender-lhe, é caminhar com ele, é ouvi-lo, enfim, é prestar todo atendimento necessário. E não há caridade sem o contato pessoal, sem a valorização da relação interpessoal. 
Praticando este princípio pedagógico: Também o umbandista deve estar atento às necessidades dos educandos, atendendo-lhes com amor e solicitude, afeto e paciência. Deve fazer da sala de aula uma extensão do lar, não apenas no aspecto físico, mas, principalmente, no sentido da relação afetiva. Deve procurar ouvir os educandos e aproveitar suas narrativas, suas angústias, seus problemas, seus sonhos, suas alegrias, para de tudo isso extrair lições de vida que enriqueçam a importância do contato pessoal, do estar com outro, do construir sua história com a história dos outros.

4. O Homem e a Experiência Humana

Compreendendo o princípio pedagógico: Outro princípio praticado por Jesus é "não dar o peixe, mas ensinar o homem a pescar", como ensina antigo provérbio chinês. Estimulando os discípulos à prática do amor e da caridade, prepara-os para exercitarem por si mesmos os ensinos. Eles partem em duplas, pelos caminhos, para ensinar o Evangelho. Jesus estimula-os para as atividades de cura, para a desobsessão (expulsar demônios como se dizia à época) e também para o atendimento fraterno às pessoas necessitadas de orientação e consolo. Os discípulos estão sempre estudando e trabalhando. Ouvem o Mestre, fazem suas indagações e colocam-se a caminho. Jesus não fazia tudo sozinho, nem tomava o lugar que competia aos discípulos. Sabia que a experiência individual é insubstituível para o crescimento equilibrado do homem. 
Visão umbandista deste princípio pedagógico: Qualificar o homem para o bom desempenho de sua missão na Terra, quer no âmbito familiar como no social, é reconhecido pela Umbanda como tarefa da educação, e isso só pode ser feito se ele tiver as lições teóricas e os espaços para a correspondente prática. Assim educado, ele terá condições de interagir com a sociedade e modificá-la. 
Praticando este princípio pedagógico: Este princípio pedagógico de Jesus determina na ação educacional que o evangelizador abra espaços generosos para que o educando faça por si mesmo, tendo a própria experiência como modelo de aprendizagem. A aplicação de vivências de solidariedade e práticas de bondade (descritas no livro "Pedagogia da Sensibilidade), são fundamentais para que o educando aprenda e incorpore em seu psiquismo as lições vivas do Evangelho.

5. Visão Integral do Homem 

Compreendendo o princípio pedagógico: Sendo espírito perfeito, governador do planeta terra, Jesus tinha plena consciência da condição integral do ser humano como espírito imortal. Não é por outra razão que ele declara: "Vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra". Ao mesmo tempo sabia lidar com os diversos graus de nossas aptidões, sempre exaltando o bem, o belo, o positivo. Não tecia julgamentos e cuidava de esclarecer e consolar na mesma medida, sem distinções, exaltando a criação divina e o potencial humano de crescimento. 
Visão umbandista deste princípio pedagógico: Observamos em Jesus a crença no homem, pois na verdade estava vendo o espírito imortal, que tem por finalismo a perfeição, o estado de puro espírito. Reconhecia nossas fraquezas e vícios, mas não os condenava, fazendo todos os esforços para aprimorar nosso entendimento e a força de vontade em superar obstáculos no auto-aprimoramento. 
Praticando este princípio pedagógico: Compete ao evangelizador reconhecer no educando esse ser integral, espírito eterno, e trabalhar no sentido de educar, ou seja, formar consciências, com amor, sem julgamentos, procurando dar todos os estímulos possíveis a esse espírito reencarnado em jornada evolutiva. Aplicam-se aqui as técnicas de sensibilização e os exercícios de vida descritos na obra "Pedagogia da Sensibilidade" (já referida).

6. Relação Teoria-Prática 

Compreendendo o princípio pedagógico: Outro princípio presente na pedagogia de Jesus é a relação constante entre a teoria dos seus ensinos e a prática dos mesmos. Ele não ficava nas parábolas, nos sermões ou contando histórias. Ele era o exemplo vivo. Diversas vezes chamou a atenção dos discípulos para a necessidade deles mesmos praticarem o que ouviam, pois o Evangelho, para se estabelecer nos corações, necessita de algo mais do que as letras faladas ou escritas, precisa do exemplo, necessita da dinâmica do amor ao próximo. 
Visão umbnadista deste princípio pedagógico: Essa relação entre a teoria e a prática é muito importante em educação, pois a formação do caráter e a educação moral do homem não se fazem somente pelos livros, pelas leis ou pelos discursos, como informa Allan Kardec em "O Livro dos Espíritos". Toda teoria, que é sempre imprescindível em qualquer ramo do conhecimento humano, significa o estudo, a apreciação, enfim, o próprio conhecimento da ciência ou disciplina à qual nos dedicamos. A teoria deve estar conjugada com a prática, que corresponde às experiências acumuladas de aplicação da teoria. 
Praticando este princípio pedagógico: O evangelizador deve trabalhar de forma dinâmica e criativa, fazendo da sala de aula um ambiente alegre, proveitoso nos ensinos e estimulante no fazer. Jogos cooperativos e dinâmicas para desenvolvimento do relacionamento interpessoal devem intercalar os estudos, fazendo com que os educandos se sintam envolvidos pela energia do Evangelho e percebam que sua prática no mundo atual é perfeitamente possível e necessária.

7. O Sentido Transcendente da Experiência Humana 

Compreendendo o princípio pedagógico: Por que vivemos na terra? Por que temos a experiência reencarnatória? Jesus respondeu essas e outras questões no magistral diálogo com Nicodemos, ao esclarecer as diferenças entre o corpo e o espírito, nosso ascendente divino e nossa destinação superior. Como Mestre, sempre esclareceu a necessidade de transcendermos a condição humana, de combatermos o egoísmo, o orgulho e os vícios em nós mesmos. Em reconhecermos a paternidade divina e darmos importância às relações afetivas que constroem o homem verdadeiramente civiliza-do. 
Visão umbandista deste princípio pedagógico: É essa transcendência que a Umbanda resgata e que deve ser trabalhada pelo processo educacional desenvolvido pela evangelização umbandista. O educando, em essência espírito imortal, utiliza a reencarnação como tempo de aprendizagem, resgate de débitos passados e construção de si mesmo, além de atuar na sociedade para o adiantamento da mesma. 
Praticando este princípio pedagógico: Valorizar a vida humana em seu rico universo: família, instituições sociais diversas, interação com o próximo, mostrando aos educandos a importância da existência terrena, onde o presente está ligado ao passado e também ao futuro. Trabalhar a educação moral com a formação do caráter e o desenvolvimento de bons hábitos.


*Marcus De Mario é educador e escritor. É diretor do Instituto Brasileiro de Educação Moral e colaborador do Centro Espírita Humildade e Amor, na cidade do Rio de Janeiro.
Mario, Marcus Alberto De. Pedagogia da Sensibilidade. Rio de Janeiro: Interior da Alma, 1ª ed., 2002.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Fenomenologia orgânica e psíquica da mediunidade


Há quase um século se estuda os fenômenos orgânicos e psíquicos da mediunidade. No Brasil um dos mais importantes estudiosos nesta área é o neuropsiquiatra Sérgio Felipe de Oliveira, mestrado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor da Clínica Pineal Mind de São Paulo. Nesta entrevista para a revista “Saúde e Espiritualidade” (“Health and Spirituality”), Dr. Sérgio nos conta um pouco de seus estudos e investigações sobre a glândula pineal e a mediunidade.

  • Saúde & Espiritualidade: A Ciência reconhece o tema da “mediunidade”?
    Dr. Sérgio Felipe de Oliveira: O Código Internacional de Enfermidades (CID) N°10 (F44.3) de certa forma o reconhece; do mesmo modo que o tratado de Psiquiatria de Kaplane e Sadock, no capítulo sobre as teorias da Personalidade, quando se refere ao estado de transe e de possessão pelos espíritos. Carl Gustav Jung, fez um estudo com uma médium possuída por espíritos. Enfim, já é uma abertura para discutir o tema do ponto de vista científico.


  • S&E: No seu curso, como o senhor orienta as pessoas para o estudo da mediunidade?
    Dr. Sérgio: De início, é necessário apresentar os conceitos de Universos Paralelos e a Teoria das Superquedas, porque essas hipóteses científicas buscam a unificação de todas as forças físicas conhecidas e pressupõem a existência de 11 dimensões, coincidindo com a revelação espírita sobre os diversos planos da vida espiritual. Temos que estudar também outros temas científicos importantes, tal como a Física Quântica, apresentada por Einstein e desenvolvida por Paul Dirac, assim como o teorema de Gödel. Precisamos discutir um pouco sobre os tipos de matéria que participam da construção dos corpos sutis do espírito, além de estudar a dinâmica da Psicologia Transpessoal. Assim podemos entender melhor como se pruduz a comunicação entre os espíritos, sejam esses encarnados ou desencarnados.
  • S&E: Que seria realmente a mediunidade?
    Dr. Sérgio: A mediunidade é uma faculdade da percepção sensorial. Como qualquer faculdade deste tipo, para ser exercida, a mediunidade necessita de um órgão que capte e o outro que interprete. A nossa hipótese é que a glândula pineal é um órgão sensorial da mediunidade, como um telefone celular, que capta as ondas do aspecto eletromagnético, que vêm da dimensão espiritual, e o lóbulo frontal faz o juízo crítico da mensagem, auxiliado pelas demais áreas encefálicas.


  • S&E: Mas a glândula pineal não se calcifica depois dos 10 anos de idade?
    Dr. Sérgio: De fato, ocorre o processo bio-mineral da glândula e ela se calcifica. Em minha tese de doutorado da USP, investiguei os cristais da glândula pineal mediante a difração dos raios X. Eu usei também a tomografia computadorizada e a resonância magnética. Tive a oportunidade de observar nos cristais uma micro circulação sangüínea que os mantinha metabolicamente ativos e vivos. Acredito que sejam estruturas diamagnéticas que repelem ligeiramente o campo magnético, cujas ondas se deixam ser recocheteadas de um cristal a outro. Isso é como um seqüestro dos campos magnéticos pela glândula. Quanto mais cristais uma pessoa tem, mais possibilidades terá de captar as ondas eletromagnéticas. Os Médiums ostensivos têm mais cristais.
  •  S&E: Quais são os sintomas da mediunidade? 
    Dr. Sérgio: Variam dependendo do tipo da mediunidade. Nos fenômenos espíritas, como é o caso da psicofonia, da psicografia, da possessão, etc, há captação pelos cristais da glândula pineal e sua ativação adenergética, quero dizer que pode ocorrer ataque cardíaco, aumento do fluxo renal, circulação periférica diminuída, etc. Nos fenômenos psíquicos, em que a alma do encarnado se afasta do corpo, como em estado de desdobramento, os sintomas são outros: podemos ter distúrbios de sono, sonambulismo, terror noturno, ranger de dentes, angústia, fobia, etc. Encaixam-se aqui também os fenômenos de cura e ectoplasma. Nos psíquicos, ocorrem mais fenômenos colienergéticos: expansão das atividades do aparelho digestivo, diminuição da pressão arterial, etc.

  • S&E: Quer dizer que a mediunidade não se manifesta sempre como fenômeno paranormal?
    Dr. Sérgio: Correto. Uma boa parte das vezes, se expressa mediante alterações do comportamento psicobiológico. A explicação é a seguinte: a glândula pineal, um órgão sensorial, capta as ondas magnéticas dos universos paralelos; a percepção seria enviada ao lóbulo frontal que a interpretaria. Para isso é necessário se ter um certo treino e, antes de mais nada, a transcendência, do contrário não há desenvolvimento nessa área.

  • S&E: E no caso de a pessoa não conseguir essa trascendência?
    Dr. Sérgio: Nesse caso as ondas magnéticas vão influir diretamente sobre as áreas do hipotálamo e as estruturas ao seu redor, sem passar pelo juízo crítico do lóbulo frontal e sem receber seu comando. Conseqüentemente a pessoa perde o controle do comportamento psicobiológico e orgânico. É o que acontece em muitos casos de obesidade, quando a pessoa come sem fome ou nos casos de dificuldades nas relações sexuais. Se o efeito se produz na área da agressividade, haverá talvez um aumento da auto-agressividade (desencadeando depressão e fobia) ou da hetero-agressividade (com violência contra outras pessoas). Se o sistema reticular ascendente é ativado (esse sistema é responsavel pelos estados de sono e vigilia) podem ocorrer distúrbios nessa área. Nos casos citados ocorrem sintomas sem desenvolvimento da mediunidade, com alterações hormonais, psiquiátricas ou orgânicas. Se não há o controle do lóbulo frontal, as áreas mais primitivas predominam. A pessoa não usa a capacidade de transcendência. Essas são hipóteses que acumulei durante as investigações e nos casos clínicos.
      
  • S&E: Se um paciente lhe perguntasse se o seu problema é espiritual ou orgânico, qual seria a sua resposta?
    Dr. Sérgio: Não existe uma coisa separada da outra. Eu parto da hipótese de que a pessoa é um espírito. Por isso a influência espiritual tem repercursão biológica e os comportamentos psico-orgânicos têm influência sobre o espírito.
  •  
    S&E : Qual e o caminho para a integração da ciência e da espiritualidade?
    Dr. Sérgio: O cérebro está, como um embrião, ligado ao coração. Não existe raciocínio sem emoção. Somente a capacidade de amar constrói a verdadeira identidade das pessoas. Somente após a união definitiva entre a Ciência e a Espiritualidade, a humanidade poderá encontrar a paz e o amor.
    Da revista Saúde e Espiritualidade da Associação Médico Espírita.