quinta-feira, 27 de junho de 2013

OS ANIMAIS NO XAMANISMO KATUKINA - Parte 4

Edilene Coffaci de Lima
Depto de Antropologia/UFPR
Doutoranda no PPGAS/USP

Por que não comer?

A maior parte dos animais também sofrem restrições de consumo associados ao estado de saúde das pessoas e ao período de gravidez, que nos interessam diretamente aqui. Durante a gravidez e enquanto os filhos têm poucos anos de idade, os pais e a própria criança não devem comer carne de nenhum tipo de macaco, caso contrário a criança fica agitada e chora muito à noite. Durante todo o período da gravidez uma mulher deve abster-se de consumir a carne de animais de casco (shakaya), como todas as espécies de tatu, jabotis e tartarugas, além de arraias e bodes, seres que têm sua morada debaixo da terra e em paliçadas ou que se remexem na terra, que podem dificultar o parto. Mulheres menstruadas (imiya) devem evitar comer o fígado (taka) de todos os animais, senão há um aumento do fluxo menstrual. Crianças e adultos, quando gravemente doentes (vopi), não podem comer a carne de nenhum mamífero, como paca, veado, tatu, porquinho, queixada, cutia, coatipurus e macacos. As interdições alimentares são extensivas a seus parentes diretos – pai, mãe, filhos e irmãos – que, como eles, devem alimentar-se exclusivamente de vegetais, peixes e aves. Após o parto aplica-se a mesma dieta, por um período aproximado de duas semanas, à mãe e ao pai da criança recém-nascida. A persistência da doença e, em casos extremos, a morte freqüentemente são atribuídos ao não cumprimento das restrições alimentares.
A observação estrita dos tabus alimentares não diz respeito exclusivamente à capacidade individual de resistir aos alimentos proibidos. A densa rede de relações de parentesco e a teoria da concepção nativa interferem também aqui. Começo pela teoria da concepção.
Como afirmei anteriormente, durante o período pós-parto, o pai, a mãe e os irmãos da criança recém-nascida não podem comer a carne de nenhum mamífero. Contudo, a teoria da concepção nativa diz que a gestação é resultado da troca de fluídos corpóreos entre homens (sêmen) e mulheres (sangue), através de repetidos intercursos sexuais. Além disso, admite-se que uma pessoa possa ter mais de um genitor masculino. Quantos forem os parceiros de uma mulher no período imediatamente anterior e posterior ao anúncio da gravidez, tantos serão os pais da criança. A rigor, todos os genitores masculinos têm que seguir a mesma dieta no período pós-parto, seja ele quem “fez” ou quem “ajudou a fazer” a criança, como os Katukina costumam dizer.
A proibição de comer a carne de todos os mamíferos no resguardo pós-parto é relaxada se, dias após a cicatrização do umbigo, a criança não apresenta qualquer problema de saúde, em um período variável de 10-20 dias, quando os pais passam a poder comer quase tudo, com exceção das espécies de macaco e coatipuru.
No que diz respeito às relações de parentesco, os Katukina dizem que sempre que uma pessoa adoece, seja uma criança ou um adulto, pai, mãe e irmãos não devem consumir a carne de qualquer mamífero, tartaruga e jacaré. Formados pelos mesmas substâncias, entende-se que os distúrbios fisiológicos de um afete, de algum modo, todos os membros da família elementar e todos têm então que observar a mesma dieta daquele que está debilitado fisicamente.
O que resulta no dia-a-dia da aldeia em recados sobre a saúde das pessoas circulando por todos os lados. Considerando, por exemplo, a virilocalidade atual dos Katukina, as filhas casadas moram em agrupamentos residenciais distantes de seus parentes diretos e, no caso de adoecer seriamente, alguém deve imediatamente comunicar a seus pais e irmãos, para que estes observem a mesma dieta e acompanhem a progressão de seu estado de saúde. No caso de haver meio-irmãos, o que é bastante comum, estes também devem ser avisados.
Quando a pessoa doente tem parentes diretos morando em outra aldeia ou em viagem, a situação pode adquirir contornos dramáticos. A distância de algum parente que, sem saber que tinha um familiar doente, comeu alimentos proibidos e contribuiu, involuntariamente, para agravar seu estado de saúde foi sempre lembrada.
O resguardo obrigatório entre as pessoas que partilham a mesma substância deve prolongar-se por toda a vida. Havendo uma pessoa doente, pai, mãe e irmãos devem adotar a mesma dieta alimentar que ela. Os filhos devem fazer o mesmo em caso de doença do pai ou da mãe. Entretanto, marido e mulher não fazem resguardo um pelo outro. Seus filhos foram concebidos pela combinação de suas substâncias, que são diversas, por isso ambos devem resguardar-se por eles mas não um pelo outro.
Os tabus alimentares incidem também sobre alguns dos animais domésticos introduzidos entre os Katukina após o contato com os brancos. Galinhas e patos são apropriados ao consumo em qualquer tempo, estejam as pessoas sadias ou enfermas, como ocorre com as demais aves. Embora o consumo de carne bovina seja pequeno (alguns katukina não apreciam mesmo o paladar desta carne), diz-se comumente que a carne de boi (voi) não está sujeita a qualquer tipo de interdição. Já o consumo de carne de ovelha (txasho) e porco doméstico (hono) é orientado pelas mesmas interdições previstas para os animais silvestres que citei no início. Neste ponto é importante observar que o boi é chamado de voi entre os katukina, a troca do b pelo v parece ser simplesmente uma adequação à fonologia da língua. A ovelha é chamada de txasho, o mesmo termo com o qual designam o veado, e o porco doméstico é chamado de hono, o mesmo termo utilizado para o porco silvestre. O fato de ovelha e porco doméstico terem correlatos silvestres parece explicar a interdição de consumo a que estão sujeitos em casos de doenças, pois são as interdições previstas para o veado e o porco silvestre na mesma situação.
A ingestão de alimentos proibidos, como temos visto, pode causar o agravamento do estado de saúde de uma pessoa já enferma ou dificuldades no parto se uma mulher estiver grávida. Em casos de doença, os Katukina identificam alguns distúrbios fisiológicos recorrentes de acordo com o animal ingerido. Assim, temos:


Animal consumido
Distúrbios fisiológicos
Paca, paca-de-rabo, cotia, tatus, jaboti e jacaré
Enrijecimento e dores do abdômen, diarréia e vômitos
Anta, capivara, queixada, porco e veado
Salivação, tremores, febre e olhar parado em ponto fixo
Macacos e coatipuru
Dor de cabeça, tontura e agitação
Paralelamente à interdição do consumo de determinadas carnes em casos de doença, está a proibição, extensiva ao pai, mãe e irmãos da pessoa doente, de ter relações sexuais. Em termos ainda preliminares, as proibições de carne e de sexo, além de sugerirem a equivalência entre sexo e caça tão difundida entre os grupos amazônicos[1], parece relacionada à tentativa de interceptar o contato com substâncias alheias ao pequeno grupo da família nuclear e que estão contidas em secreções do corpo, yorã pae[2], que, neste caso, tanto pode ser o sêmen como secreções vaginais (e, devo pensar, também no sangue), já que a atividade sexual é vetada aos homens e mulheres igualmente. Tudo se passa como se a família elementar tivesse que se conter em si mesma até a superação do período crítico.
A explicação para a abstinência de carne de caça nestes casos remete à origem mítica de todos os animais que vivem na terra e têm quatro patas, como anta, porquinho, queixada, paca, paca-de-rabo, cutia, cotiara, veado, tatu-canastra, tatu, coatipurus, macacos. Segundo os Katukina, os animais têm espíritos pois no passado remoto eles eram seres humanos, que foram transformados em animais por uma divindade – chamada Koka pino txari. Para salvá-los do ataque de um gavião gigante – chamado Txai tevo – que iria matar a todos, Koka pino txari, transformou-os em animais, que até então não existiam na floresta. Os animais, todos eles originados então de seres humanos,[3] têm espíritos (yuxin), que são mais fortes do que o espírito que as próprias pessoas têm, no caso delas estarem debilitadas fisicamente. Por isso uma pessoa doente não deve comer a carne destes animais, pois o seu próprio espírito, capaz de resistir apenas quando o corpo está sadio, seria subjugado pelo espírito do animal ingerido. Koka pino txari, na mesma época em que criou os animais, criou também as aves, após arrancar e assoprar os pelos de sua perna, fazendo com que surgissem araras, tucanos, nambus, jacamins, saracuras, entre outros. Mas as aves, diferentemente dos animais citados, não têm espíritos.
Erikson (1987:112-113) e Descola (1989:348-362) já mostraram, a partir do exame do vocabulário de caça em grupos amazônicos, que as relações entre homens e animais são ordenadas pela aliança; mas uma aliança "trapaceada" ("falsa aliança", segundo Descola), visto que sem contrapartida, contrária portanto à reciprocidade real entre cunhados humanos. Desta maneira assimilando as relações entre homens àquelas entre homens e animais. A assimetria nas relações entre homens e animais é o que explica, em alguns casos, o envio de doenças dos animais aos homens. Faltam-me dados sobre a caça katukina para eu possa assumir integralmente a análise desses autores. Em todo caso, algumas pistas neste sentido estão já indicadas, pois o primeiro nome, Koka, do personagem mítico que criou os animais, é um termo de parentesco utilizado para afins. Koka é o irmão da mãe, sogro potencial, considerando que os Katukina apresentam um sistema de parentesco do tipo dravidiano (Lima, 1994).
Para finalizar, pelo menos por ora, a ancestralidade humana dos animais, parece-me possível supor, os fazem possuidores de espíritos que, de alguma maneira, interagem e circulam entre os homens, mas cuja interação e circulação podem resultar no inverso da caça, i.e., os homens podem ser transformados em presas. Aos xamãs e rezadores cabe justamente mediar entre homens e animais, definindo seus campos de interação e também apaziguando eventuais conflitos entre eles.

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Resumo: Estudo etnográfico das representações simbólicas katukina (pano) das espécies naturais, a partir de seu sistema xamânico. Serão abordados os contatos sobrenaturais e sonhos que podem dar início a uma carreira xamânica, os tabus alimentares, a causação e cura das doenças. Apesar do tema ainda não ter sido abordado com freqüência na literatura pano, serão ensaiadas algumas comparações com aqueles já descritos na bibliografia.




[1] Entre os Katukina sonhos eróticos indicam caça farta, o que replica a equivalência entre atividade sexual e cinegética.
[2] Pae designa várias secreções de humanos e animais. Genericamente, saliva e secreções nasais são pae, secreções do olho são wero pae. Do mesmo modo, o veneno das cobras é chamado de rono pae.
[3] O que remete diretamente à observação de Viveiros de Castro (1996:118-119) de que, no pensamento ameríndio, "a condição original comum não é a animalidade, mas a humanidade. Os humanos são aqueles que continuaram iguais a si mesmos; os animais são ex-humanos, e não os humanos ex-animais" (itálicos do autor).

quarta-feira, 26 de junho de 2013

OS ANIMAIS NO XAMANISMO KATUKINA - Parte 3

Edilene Coffaci de Lima
Depto de Antropologia/UFPR
Doutoranda no PPGAS/USP

Tabus Alimentares

Como disse no início, a maior parte das doenças têm suas causas relacionadas ao desrespeito aos tabus alimentares. Estes incidem sobre animais e, em menor medida, também sobre os vegetais. A seguir, limito-me, para não me alongar demasiadamente, a apresentar as restrições aos alimentos de origem animal.
Dentre os mamíferos, os Katukina comem: capivara (ame), paca (ano), paca-de-rabo (kestavo), veado (txasho), porquinho (hono), queixada (yawa), anta (awa), macaco-preto (iso), guariba (ro'o), soim (shipi), macaco-da-noite (nesho), zogue-zogue (paka roka), macaco-prego (shino kuin), cairara (shino manã), paruacu (roka voshpo), macaco-de-cheiro (wasa), tatu (yawish), tatu-canastra (pano), tatu-rabo-de-couro (kãsho) e coatipuru (kapa). Destes, os mais apreciados são a queixada e o porquinho, pela grande quantidade de gordura que têm.
Outros animais são controversos quanto ao uso alimentar, pois há quem os tenha como alimento legítimo e quem afirme o contrário, tal é o caso da irara (voka), da onça-vermelha (kamã hõshi) e do coelho (maka pãtxoya).
Os Katukina não comem mambira (vi'i) tamanduá-bandeira (sha’e), preguiça (nõi), rato (maka), mucura (pisi mashõ), cuandu (isã), cachorro-do-mato (kamã), gato-do-mato (ketsi), onça-pintada (kamã keneya) e ariranha (hene kamã). Todos considerados repulsivos, com exceção da preguiça, que não é comestível por não ser considerada um animal, mas um espírito, yuxin.
Há também certos animais e peixes que são consumidos exclusivamente por pessoas de uma certa classe de idade, tal é o caso do soim (shipi), que segundo os Katukina só podem ser comidos por pessoas velhas (sheneya). Há duas explicações para esse restrição: alguns dizem que se crianças e jovens comerem o soim terão logo cabelos brancos e também muita preguiça, outros dizem que crianças não podem comer devido ao pequeno tamanho do soim e que elas não cresceriam e teriam muita preguiça. Igualmente, as crianças não podem comer tartaruga de igapó (nesho) e tatu-rabo-de-couro (kãsho). Os Katukina dizem que se as crianças comem tatu-rabo-de-couro não tomam banho e se comem tartaruga de igapó, além de não tomarem banho, querem ficar expostas ao sol. Entre os peixes, é dito que a piranha (maki) não deve ser consumida por crianças e jovens até aproximadamente 20 anos, pois causa dores nas costas que, no futuro, os impedem de trabalhar. O mandim-pintadinho (yoma) e o mandim-dourado (kanai), se consumidos por crianças e jovens, causam preguiça.
Estas proibições são justificadas por referência aos hábitos e características que reconhecem nos animais: a agitação dos macacos faz com que as crianças não durmam à noite e o cheiro dos buracos onde são encontrados os tatus-rabo-de-couro é associado à sujeira e à falta de banhos, que está relacionada à preguiça e ao desmazelo. Entretanto, na outra ponta, temos animais cujo consumo pode despertar hábitos e características apreciados. Esfregar o tutano (napo) do veado (txasho) nas pernas das crianças pode fazer com que aprendam mais rápido a andar. O sangue do tatu-canastra (pano) na testa das crianças, pode fazer com que vivam muitos anos. Comer a cabeça do pica-pau (voi) pode preparar os meninos para, no futuro, derrubarem árvores, acertando as partes ocas, e prepararem os roçados.
Curiosamente, os Katukina parecem ter abandonado a prática de tentar despertar nas crianças as qualidades valorizadas em alguns animais. Em todo período de campo, não vi tutano de veado ser esfregado nas pernas das crianças nem pica-pau ser abatido para que os meninos comessem a cabeça. Seja como for, insiste-se muito na proibição de crianças comerem a carne de animais cujas características são desprezadas ou perturbadoras. Inúmeras vezes vi crianças chorando, pedindo aos pais ou avós para que lhes deixassem comer, ao menos um pequeno pedaço, alguma carne que lhes era proibida, mas nunca vi terem seus pedidos atendidos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

OS ANIMAIS NO XAMANISMO KATUKINA - Parte 2

Edilene Coffaci de Lima
Depto de Antropologia/UFPR
Doutoranda no PPGAS/USP

Os segredos das cobras

Seja para tornar-se um romeya (xamã) ou um shoitiya (rezador/curador), um homem deve encontrar uma cobra que lhe revela os segredos da cura. Caçando, a caminho de casa ou mariscando, a cobra aparece no caminho de um homem, que sente estranhas sensações em seu corpo – mudança de cheiro (o corpo cheira cobra), turvamento da visão, tonturas e calafrios. Estes encontros com as cobras, são interpretados como eleição, uma indicação de que a pessoa foi escolhida para deter os conhecimentos de cura. O tamanho da cobra (muito grande/grande) parece determinar a quantidade de segredos que pode revelar e se um homem poderá atuar como xamã (romeya) ou rezador (shoitiya).[1]

Contudo, a visão da “cobra grande” é controversa entre os próprios rezadores Katukina: alguns afirmam não tê-la visto realmente, mas apenas sentido sua presença. Este é o caso de Mekõ que afirmou não ter visto a cobra, viu apenas a canarana subindo entre as águas – supostamente levantada pela cobra. Foi o suficiente: as alterações produzidas em seu corpo indicavam que havia sido eleito. Mani, um rezador mais experimente e ativo do que Mekõ, afirma também não ter estado diante de uma cobra, pelo menos não de uma cobra viva. Durante uma caçada, ele encontrou pelo caminho a carcaça de uma grande jibóia, morta. Do mesmo modo como Mekõ, Mani afirma ter tido sensações nunca antes experimentadas: tremores e calafrios e, especialmente, luzes invadiam sua visão. Ambos concordam que o encontro com a cobra é fundamental no processo de eleição de um rezador – ainda que o encontro de ambos com uma não tenha sido efetivo, como se pode a princípio imaginar, tamanha a ênfase que eles próprios dão ao fato.
Para compreendermos o nexo estabelecido pelos Katukina entre as cobras e o conhecimento xamânico é necessário recorrermos a um mito katukina que narra a origem da vida breve. Neste mito os Katukina contam como seus ancestrais ouviram um homem chamá-los, falando que se fossem ao encontro dele, receberiam uma “pedra” que os tornariam imortais. O homem os chama uma, duas, três, várias vezes e os Katukina não atendem ao seu chamado, porque não ouvem direito e não dão muita atenção. Depois de algum tempo, os Katukina decidem mandar uma criança ao encontro do tal homem. Entretanto, ele se recusa a entregar a “pedra” à criança, com receio de que ela não reconhecesse seu valor e a desprezasse. Irritado, este nawa sentenciou: “já que vocês não quiseram a minha pedra, você não vão ser muitos, pois minha pedra ia ajudar a aumentar a população de vocês. Mas vocês perderam [a oportunidade]. Agora, quando um morre, outro nasce, assim vocês vão viver a vida inteira e não vai aumentar a população de vocês”. A “pedra” capaz de imortalizar os homens acabou ficando em poder das cobras, por isso elas trocam a pele, sem nunca morrerem. Os Katukina dizem: “se tivéssemos pego esta pedra, a gente ficava bem velhinho, trocava o cabelo, a pele e ficava novo”. Aos Katukina restou apenas a perspectiva de uma “ressurreição celeste”[2], já que os mortos, ao adentrarem o céu, adquirem uma nova pele, para que tenham um nova vida – desta vez, eterna – e não sintam saudades.
Além das cobras, uma espécie de lagarto e uma árvore conhecida regionalmente como mulateiro também obtiveram o rome. As cobras, o mulateiro e o lagarto asseguraram a vida eterna e a troca de pele (casca) periódica entre eles marca a excepcional capacidade de renovação e rejuvenescimento. A precariedade e provisoriedade da vida katukina, parece possível supor, é contornada pelos xamãs e rezadores que obtêm parte de seus conhecimentos de cura por intermédio das cobras, detentores do rome e, por isso, imortais.
Os desenhos labirínticos do couro da cobra, muito apreciados pelos Katukina[3], são também relacionados ao conhecimento xamânico. As pessoas costumam dizer: “tal cobra tem desenho bonito, tem rome” (rono keneya romeya). Beleza e conhecimento aparecem então intimamente associados.[4]
As alterações sensoriais – olfato e visão, principalmente – diante de uma grande serpente seriam indicativas de que ela “jogou” o rome em um homem e o rome penetrou em seu corpo, o que o capacita, de alguma maneira, a estabelecer relações sobrenaturais. Os xamãs teriam rome em grandes quantidades, o que não só explica a tradução de sua designação vernácula como sua superioridade em relação aos rezadores, que o têm em menor quantidade.
A permanência do rome no corpo, entretanto, não é definitiva, deve ser garantida com uma rotina sem sobressaltos e uma dieta alimentar. No que diz respeito à rotina, a principal precaução a ser tomada é evitar sustos, emoções repentinas. O latido inesperado de um cachorro ou mesmo o grito de uma criança podem dissipar o rome. Quanto à dieta, os aprendizes e também os rezadores experientes devem evitar os alimentos doces (vata), como açúcar, mamão, cana-de-açúcar e algumas qualidades de banana.
A eleição ao xamanismo independe do desejo ou da aspiração dos indivíduos, uma vez que o contato com o sobrenatural, nesta etapa, não é uma prerrogativa do desejo ou da decisão voluntária do indivíduo.
Após o encontro com a cobra, um homem passa a ter sonhos de revelação, os segredos de cura são aprendidos. Os rezadores com os quais pude discutir estes assuntos disseram-me que sonharam com um homem que lhes oferecia ayahuasca ou rapé para consumirem juntos. Em seguida, este homem dava-lhes uma mulher com a qual se uniam e que, desde então, sempre os acompanhava, ensinando-lhes a identificar as doenças e suas respectivas curas. Porém, apenas um dos rezadores, Mani, identificou claramente Rono Yuxin como sua “esposa”. Mani, que reza há quase 30 anos, afirmou que Rono Yuxin é muito bonita, deslumbrante, e ora se parece com sua primeira mulher ora com sua mulher atual, embora não seja nem uma nem outra.
No primeiro sonho, em um cenário de trevas, estes homens dizem ter visto muitos doentes: pessoas prostradas nas redes, com febre, diarréia, tremores, tosse, vômitos. A mulher, encarnação de rono yuxin (espírito da serpente), ensinava-lhes então as palavras mágicas que deveriam ser ditas e que eles passavam a repetir uma a uma. Pouco tempo depois, os doentes estavam bons: sentavam-se, bebiam água, comiam, penteavam os cabelos – o que indicava que já estavam curados.
Um sonho como este sela definitivamente a eleição para tornar-se um shoitiya. A partir de então, o homem procura um rezador mais experiente que possa iniciá-lo nos segredos e na prática das rezas, além de passar a consumir quantidades maiores de rapé que estimulam novos sonhos com o “espírito da serpente”, com o qual deve aprender novas rezas.
Apenas um dos rezadores, Ne’e, afirma não ter feito sua iniciação desta maneira. Ao invés de ter visto uma cobra, ele teria sido picado por uma (no caso, uma imi rono, “cobra sangue”, numa tradução literal) e, durante sua recuperação, teria sido eleito por intermédio dos sonhos.[5]
Mas nem todos que se depararam com uma grande cobra e tiveram sonhos indicativos de sua própria eleição tornaram-se shoitiya. É difícil saber quantos foram eleitos e não atenderam aos chamados, i.e., não se empenharam eles próprios em aprofundar os conhecimentos de cura. Se um homem encontra uma cobra, tem um primeiro sonho, mas não se empenha em aprofundar seus conhecimentos, o rome é perdido. Ninguém precisa saber.
Entretanto, há casos de recusa à eleição que são bem mais dramáticos. Kako, um jovem rapaz, foi mariscar com tingui, acompanhado de muitas outras pessoas, em um igarapé na aldeia do rio Gregório. Todos foram embora, mas ele decidiu permanecer mais um pouco, sozinho na mata, a procura de algum peixe que ainda aparecesse. Em cima de um balseiro caído no igarapé, ele viu passar lentamsente uma cobra gigantesca. Olhou-a fixamente, viu seu corpo deslizando sob as águas. De repente, começou a sentir tremores e calafrios, turvamento na vista, o odor de seu corpo estava alterado – sensações indicativas de sua eleição. Sem saber como controlar-se, Kako desceu do balseiro e foi ao encontro da cobra, que a esta altura já estava imóvel. Ele então pegou seu terçado e desferiu vários golpes na cobra. Correu para sua casa, alarmado, sem saber se a tinha matado. Lá chegando contou o acontecido ao seu pai, que lhe explicou que a cobra deveria estar convidando-o para tornar-se um rezador. Se ele não quisesse, deveria desculpar-se e fazer algum pedido (para que tivesse força para fazer roçados ou sorte na caça, por exemplo), jamais deveria tê-la machucado. Na mesma noite, Kako sonhou que sofria um acidente. Alguns dias se passaram e o acidente aconteceu. Sozinho pela mata, caçando, Kako tropeçou na raiz de uma árvore, caiu desajeitadamente e a espingarda detonou, acertando seu braço. Socorrido pelos missionários da MNTB, levado para a cidade de Tarauacá, Kako teve o braço direito amputado. A cobra enviara-lhe o castigo.
Não há qualquer problema em se recusar a seguir a carreira de shoitiya, em declinar ao chamado de rono yuxin, mas aqueles que a atacam são vingados. Os Katukina não matam jibóias (mana rono), sucuris e outras cobras de grande porte, pois acreditam que se assim fizerem, terão de volta a vingança da cobra morta que lhes poderá causar a morte ou deficiências físicas irreversíveis.[6]
Aqueles que aceitam de bom-grado o contato sobrenatural e desejam mesmo seguir uma carreira de rezador, devem aprofundar seus conhecimentos seja solitariamente ou com a ajuda de rezadores mais experientes ou ambas as formas ao mesmo tempo, como é mais comum. Se solitariamente, um homem passa a consumir rapé todas as noites, a fim de estimular a ocorrência de sonhos com Rono Yuxin, o espírito da serpente, que o instruí sobre as doenças e os cantos de cura. Na companhia de um rezador mais experiente, o aprendiz consome também rapé e, algumas vezes, ayahuasca[7], e aprende com ele os cantos apropriados para cada doença e também os sintomas que devem ser observados nos paciente. De uma maneira mais informal, um aprendiz pode também acompanhar um rezador mais experiente sempre que este for consultar um paciente.




[1] O tema da cobra como detentora dos conhecimentos xamânicos é recorrente entre os grupos indígenas da família lingüística pano. Entre as etapas para tornar-se xamã entre os Yaminawa peruanos, Townsley (1988:133) menciona que um homem deve comer a língua e os excrementos de uma anaconda (o mais poderoso mestre dos poderes xamânicos). Os Yaminawa da fronteira brasileira dizem que para alçar a condição de xamã, um homem deve, entre outras coisas, “chupar a língua de uma ronoá (sucuri), previamente capturada e embriagada com shori (ayahuasca) (Calávia Saez 1995:107-108). Já os Kaxinawá afirmam que o preparo e as canções do ayahuasca foram aprendidos com a sucuri (Lagrou 1996). Janet Siskind (1973:165-166) observou que entre os Sharanawa um aprendiz de xamã teve seu corpo esfregado com a língua de uma cobra e comeu o coração de uma Boa constrictor.
[2] Empresto a expressão de Viveiros de Castro (1986:446), que a usou para tratar também da relações troca de pele/imortalidade entre os Tupi.
[3] Mas não só o desenho do couro dos boídeos são apreciados, também de algumas cobras peçonhentas que não estão relacionadas ao xamanismo. Certa vez, eu e duas mulheres encontramos uma cobra (que parecia ser uma jararaca) no caminho. Mais tarde, uma das mulheres (que tinha matado a cobra) contou o acontecido para um homem e querendo descrevê-la para que ele pudesse identificá-la, dizia insistentemente: kene roapa kuin, i.e., “desenho muito bonito”.
[4] Em outros grupos pano, há uma estreita associação entre beleza, conhecimento xamânico e visões. Entre os Shipibo-Conibo (Gebhart-Sayer 1986) e os Kaxinawá (Lagrou 1996), as belas visões são expressas nos desenhos geométricos, pelas mulheres, que os elaboram a partir dos cantos dos xamãs. Nos dias de hoje os Katukina parecem ter restringido as elaborações de suas visões aos cantos. De todo modo, os desenhos geométricos talvez tenham existido em maior quantidade no passado, pois são ainda encontrados nas peneiras, peças de cerâmica e nas pinturas corporais.
[5] Montagner Melatti (1985) fala que os xamãs marubo são iniciados após uma doença causada por agentes sobrenaturais. Ela fornece uma pequena biografia dos xamãs que conheceu, e, entre eles, consta que um se tornou xamã após ter visto uma sucuriju (:407) e outro após ser picado por uma surucucu (:415). Entre os Sharanawa, Siskind também menciona o caso de um rapaz que recebeu os ensinamentos para tornar-se xamã após ter sido picado por uma cobra (1973:165)
[6] Entre os Kaxinawá, parentes lingüísticos dos Katukina, a sucuri só é morta para que as mulheres aprendam os desenhos que fazem em objetos (redes, cerâmicas) e no próprio corpo. Eles dizem que matar uma sucuri por qualquer outro motivo seria colocar a vida em risco, pois “a cobra é pajé” (Lagrou 1996:215).
[7] Embora os Katukina digam que podem tomar ayahuasca para estimular “encontros” com Rono yuxin, o mais comum é o uso do rapé. No mais, os rezadores Katukina não usam ayahuasca nas sessões de cura. Parece-me que os romeya usavam o ayahuasca com mais frequência. Segundo Erikson (1993:48), por toda a área pano, o tabaco é mais utilizado como alucinógeno xamânico do que a ayahuasca.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Convite do Nucleo


OS ANIMAIS NO XAMANISMO KATUKINA - Parte 1


Edilene Coffaci de Lima
Depto de Antropologia/UFPR
Doutoranda no PPGAS/USP

Introdução

Esta comunicação[1] pretende ser uma primeira aproximação ao xamanismo katukina[2], feita através das referências aos animais na prática e no discurso xamânico. Referências estas que estão presentes tanto nos relatos sobre a iniciação às atividades xamânicas quanto sobre as causas das doenças, boa parte delas decorrente do desrespeito aos tabus alimentares. Antes de iniciar, entretanto, é necessário dizer que há entre os Katukina apenas rezadores (shoitiya) – treze, no total. Atualmente não há mais xamãs, o último deles, Tobi, morreu há 5 anos na aldeia do rio Gregório. Conheci aldeias sem xamãs e, por isso, abordo aqui apenas a iniciação e atuação dos shoitiya.[3] Começo expondo a diferenciação entre xamãs e rezadores; em seguida, abordo a iniciação às atividades xamânicas e, por fim, os tabus alimentares e suas vinculações às causas das doenças.

Xamãs e rezadores

Primeiramente, xamãs e rezadores diferenciam-se no tipo de assistências que podem oferecer: coletivas, no primeiro caso; individuais, no segundo – embora o xamã possa também realizar consultas individuais, mas não o contrário. No que diz respeito, às assistências coletivas, os xamãs poderosos podem com seus cantos atrair a caça para a aldeia: queixadas, porcos e macacos – atraídos com canções apropriadas para cada espécie. Saber os cantos que atraem os animais, entretanto, não faz de um homem um xamã. Um dos rezadores conhecia e permitiu que eu gravasse dois desses cantos, um para atrair queixadas e outro para macacos. Mas o fato dele conhecê-los e poder entoá-los não tinha qualquer relação com a eficácia deles, pois apesar dele saber a letra e a entonação corretas – que aprendeu apenas ouvindo o falecido xamã – , desconhecia os segredos específicos da comunicação dos xamãs com os animais.[4] E, se é possível expressar-se assim, os animais não o ouviam.
Apenas os xamãs sabem curar e vingar feitiços (ra’o)[5], ainda que estes feitiços sejam direcionados individualmente – entre os Katukina as acusações, quase sempre, são feitas aos Yawanawa. No mais, fazendo uso do ayahuasca (honi), os poderes dos xamãs permitem também viagens cósmicas, com seu corpo transmutado em bichos (jaguar, principalmente), nas quais aprendem mais e mais acerca do mundo sobrenatural, ganhando poderes renovados que, pretende-se, devem ser usados em benefício da coletividade.
Já no que diz respeito às assistências individuais, a diferença sempre salientada é aquela das técnicas. Os xamãs, por sucção, podem extrair objetos patógenos que afligem seus pacientes. Estes objetos são de vários tipos: chumaços de cabelo (vo’o shoko), pontas de lança de taboca (paka) e pedaços de ossos de animais (shao) ou mesmo pequenas pedras (rome). Todos eles enviados por feitiço (ra’o), que somente ele pode curar. Os atributos dos rezadores, como eles próprios salientam, são bem mais modestos.
Aos rezadores cabe o tratamento, individual, de todos os distúrbios fisiológicos, exceto aqueles causados por feitiço. Estes distúrbios fisiológicos incluem gripe, coriza, dores no corpo, dores de cabeça, febre, vômitos e diarréia. Várias pessoas doentes consultam um rezador antes de dirigirem-se ao agente de saúde da aldeia ou ao hospital de Cruzeiro do Sul à procura de tratamento médico. Isto porque, embora os distúrbios fisiológicos atormentem o corpo, eles podem ter suas causas originadas fora dele. As causas mais freqüentemente apontadas são: desrespeito a alguns dos tabus alimentares e a presença de espíritos de pessoas mortas tentando atrair pessoas queridas para junto de si. Como há variação no grau de conhecimento dos rezadores não é indicado aos homens pouco instruídos no domínio xamânico tratarem as causas do segundo tipo.




[1] Este trabalho é parte da pesquisa que desenvolvo com vistas ao doutoramento no PPGAS/USP. A pesquisa com os Katukina iniciou-se em 1991, mas os dados aqui apresentados foram obtidos, quase que majoritariamente, nos últimos 6 meses que estive em campo, em 1997 e 1998, com financiamento da FAPESP.
[2] Os Katukina falam uma língua da família lingüística pano e têm uma população de 320 indivíduos, distribuída em dois grupos locais: TI do rio Campinas e TI do rio Gregório, no estado do Acre.
[3] Cabe dizer que shoitiya é apenas uma das denominações possíveis para “rezador”, as outras são: koshoitiya, kosa e hawe vanaya. Shoiti e koshoiti, segundo os Katukina, são simplesmente palavras sinônimas com as quais eles designam os cantos de cura, que acrescidas do sufixo de posse ya, denominariam os rezadores, donde teríamos a tradução “aquele que tem os cantos de cura”. Não obtive tradução para o termo kosa e hawe vanaya pode ser traduzido como “aquele que tem a palavra” (hawe, o que/aquele; vana, palavra, conversa; ya, sufixo de posse).
[4] Já seus próprios cantos de cura, ele não permitiu que eu gravasse.
[5] Os diagnósticos de feitiço são frequentes e, como não têm mais xamãs, para tentar curá-los os katukina têm procurado Armédio, um xamã Jaminawa-Arara residente na cidade de Cruzeiro do Sul. Armédio é neto de Crispim, o xamã de que Carneiro da Cunha (1998) falou em um artigo recente.